A Polícia Federal e o Ministério Público Federal
identificaram Marcos Antônio Bezerra de Medeiros como o “ponto de contato”
entre a distribuidora de medicamentos Dismed e a Prefeitura de Mossoró no
esquema investigado pela Operação Mederi. Gravações captadas em escuta
ambiental no escritório da empresa, em Serra do Mel, registraram os sócios da
Dismed discutindo o pagamento de propina ao então vice-prefeito e o
planejamento de financiar sua campanha eleitoral com dinheiro desviado de
contratos públicos de saúde. Marcos Medeiros é prefeito de Mossoró desde o dia
27 de março de 2026, quando Allyson Bezerra renunciou para disputar o governo
do estado.
Se os indícios levantados pela investigação federal se
confirmarem, Marcos Medeiros pode responder por corrupção passiva — pena de
dois a doze anos de reclusão — e por integrar organização criminosa, conforme a
Lei 12.850/2013. Nas peças em que PF e MPF ajuízam perante o Tribunal Regional
Federal da 5ª Região, lista-se o seu nome entre os 28 investigados alvejados
nos mandados de busca e apreensão cumpridos em 27 de janeiro de 2026.
O Blog do Dina apurou o conteúdo da representação
criminal, documento que ainda não havia sido analisado publicamente com foco no
papel de Marcos Medeiros no esquema.
A defesa de Marcos Medeiros foi procurada para comentar
essa reportagem. O Blog do Dina enviou perguntas a partir das dúvidas abertas
com o papel descrito pelos investigadores sobre Marcos. Em resposta, a defesa
enviou a seguinte nota:
Marcos Medeiros, por sua defesa, reafirma que não
praticou qualquer irregularidade no exercício de suas funções e confia que, ao
final, os fatos serão devidamente esclarecidos pela Justiça.
Antes de ser eleito vice-prefeito de Mossoró em outubro
de 2024, Marcos Medeiros ocupou cargos no coração administrativo da saúde
municipal. Foi secretário substituto da Secretaria Municipal de Saúde e
secretário interino do Fundo Municipal de Saúde — os postos que, segundo o MPF,
eram a engrenagem central do esquema investigado.
A Dismed, distribuidora de medicamentos com sede em
Mossoró, recebeu R$ 13,6 milhões da Prefeitura de Mossoró entre 2021 e 2025. O
pico foi em 2024: R$ 5,86 milhões em um único ano.
Dismed recebeu R$ 5,86 mi de Mossoró em 2024 — o maior
volume da série
Valores pagos pela Prefeitura de Mossoró à Dismed
Distribuidora de Medicamentos, por período. O pico de 2024 ocorreu enquanto o
inquérito policial da Operação Mederi já corria há quase um ano.
IPL Inquérito aberto em 24/11/2023 → contratos em 2024
atingem o pico histórico → Marcos Medeiros é escolhido como vice de Allyson
Fonte: Representação Criminal nº
0006371-27.2025.4.05.0000 (TRF-5), com base em dados do TCE-RN. Valor de 2025
refere-se ao período até mai/2025 (data das escutas ambientais). Período
2021–2023 representa valor agregado (R$ 4,82 mi total; breakdown anual pendente
de confirmação via TCE-RN).
A representação criminal de que Marcos e outros envolvidos são alvos descreve o
papel do atual prefeito de Mossoró nesses contratos sem meias palavras:
“Mencionado como ponto de contato com os sócios da
Dismed, circunstância confirmada pelos registros de mensagens e ligações de
WhatsApp.”
A Polícia Federal abriu o inquérito em 24 de novembro de
2023. Investigava uma distribuidora de medicamentos que havia movimentado
dezenas de milhões de reais junto a prefeituras do Rio Grande do Norte — e
cujos sócios mantinham contato com o servidor que controlava os contratos
dentro da Secretaria de Saúde de Mossoró.
Em 2024, enquanto o inquérito corria, a Dismed recebeu o
maior volume de recursos de sua história junto à prefeitura: R$ 5,86 milhões em
um único ano — o pico de uma série que somaria R$ 13,6 milhões entre 2021 e
2025.
Foi nesse mesmo ano que Allyson Bezerra escolheu Marcos
Medeiros como seu candidato a vice-prefeito.
Marcos venceu as eleições de outubro de 2024. A
investigação seguia em sigilo. Os contratos com a Dismed continuaram.
A rede de conexões da Operação Mederi — núcleo de Mossoró
Relações documentadas entre investigados, empresa e órgão
público, conforme Representação Criminal nº 0006371-27.2025.4.05.0000 (TRF-5).
Passe o cursor sobre os nós para ver detalhes. Arraste
para reorganizar.
Fonte: RepNotCrim 0006371 (pgs. 36, 98, 100, 307, 309,
311) + IPL Parte 2 (pgs. 703–705). Conexões baseadas em evidências documentais:
escutas ambientais, registros de WhatsApp, análise financeira do TCE-RN e COAF.
Em 6 de maio de 2025, os sócios da Dismed, Oseas
Monthalggan Fernandes Costa e José Moabe Zacarias Soares, estavam no escritório
da empresa em Serra do Mel. Conversavam sobre os contratos de Mossoró — um
milhão e meio de reais que a prefeitura havia pago à distribuidora — e
simulavam, em voz alta, o que diriam a Marcos em um encontro que planejavam ter
com ele.
A transcrição da escuta ambiental registra Oseas narrando
o que diria ao então vice-prefeito:
“MARCOS, eu queria combinar com você duas coisas: do
jeito que tá não tá ganhando eu nem você! Desse aqui eu fui em cima, fui
abaixo, fui em cima, fui abaixo e deu pra arrumar cem conto pra vocês, tá
certo? Tô tirando do meu lucro! Agora, MARCOS, eu queria que… tá aqui, um
milhão e meio se fosse como a gente trabalhava antes você botava duzentos e
tantos no bolso, meu filho!”
O MPF não deixou a frase passar sem interpretação. Na
análise de prova, o órgão registra: “A referência a ‘como a gente trabalhava
antes’ sugere claramente um relacionamento pretérito entre as partes,
presumivelmente quando MARCOS ANTÔNIO ocupava função na Secretaria de Saúde. A
menção a valores que ‘você botava duzentos e tantos no bolso’ indica que havia
recebimento de valores por parte de MARCOS ANTÔNIO BEZERRA DE MEDEIROS em
período anterior.”
O que as escutas registraram sobre Marcos Medeiros
Trechos das gravações ambientais no escritório da Dismed
em Serra do Mel (mai/2025), reproduzidos na Representação Criminal nº
0006371-27.2025.4.05.0000.
MARCOS, eu queria combinar com você duas coisas: do jeito
que tá não tá ganhando eu nem você! Desse aqui eu fui em cima, fui abaixo, fui
em cima, fui abaixo e deu pra arrumar cem conto pra vocês, tá certo? Tô tirando
do meu lucro! Agora, MARCOS, eu queria que… tá aqui, um milhão e meio se fosse
como a gente trabalhava antes você botava duzentos e tantos no bolso, meu
filho!
Contexto: Oseas Monthalggan simula o que diria a Marcos
em reunião planejada. A frase “como a gente trabalhava antes” levou o MPF a
concluir que havia repasse anterior, quando Marcos estava na Secretaria de
Saúde.
Ele vai cobrar o valor. Eu tenho que dar aqui a você
duzentos mil de PROPINA hoje. Aí eu pago cem (R$ 100.000,00) você está
entendendo e cem… você guardando pra sua CAMPANHA.
Quem fala: José Moabe. O MPF classificou esta fala como
não deixando “muita margem a outras interpretações”.
Vai tirando esse dinheiro e guardando. Quando for no
final, quando for pra começar tá aqui MARCO, aqui é um extra pra você.
Plano total: acumular R$ 500 mil ao longo de um ano para
a campanha de Marcos. Quando Moabe mencionou a campanha de Allyson ao governo
do estado, Oseas respondeu: “Pra dele, homi!” — distinguindo os dois
destinatários.
Transcrições reproduzidas a partir da Informação Policial
nº 99/2025, incorporada à Representação Criminal nº 0006371-27.2025.4.05.0000
(TRF-5, págs. 36, 100, 307). Escuta ambiental autorizada judicialmente no
escritório da Dismed em Serra do Mel/RN.
Dias depois, os mesmos interlocutores voltaram ao tema.
Em uma sequência de três gravações, Oseas e Moabe discutiram a estratégia para
financiar a campanha eleitoral de Marcos — que, naquele momento, exercia o cargo
de vice-prefeito de Mossoró há quatro meses e era apontado como o sucessor
natural de Allyson Bezerra na prefeitura.
Moabe propôs uma conta que, segundo o MPF, “não deixa
muita margem a outras interpretações”:
“Ele vai cobrar o valor. Eu tenho que dar aqui a você
duzentos mil de PROPINA hoje. Aí eu pago cem (R$ 100.000,00) você está
entendendo e cem… você guardando pra sua CAMPANHA.”
E mais adiante, na mesma conversa:
“Vai tirando esse dinheiro e guardando. Quando for no
final, quando for pra começar tá aqui MARCO, aqui é um extra pra você.”
Oseas confirmou: “Pra campanha!”
O plano total era acumular R$ 500 mil ao longo de um ano
— dinheiro reservado para a campanha de Marcos. Quando Moabe mencionou a
campanha de Allyson ao governo do estado, Oseas foi direto: “Pra dele, homi!” —
distinguindo os dois destinos.
A PF, ao analisar as gravações, identificou “MARCO” como
“provavelmente o atual vice-prefeito da cidade de Mossoró/RN, Marcos Antônio
Bezerra de Medeiros, futuro candidato a cargo eletivo e destinatário de valores
a título de propina a ser oferecida pelos representantes da Dismed
Distribuidora.”
O que tornaria o caso de Marcos Medeiros distinto dos
demais é uma linha registrada nos autos: os contatos entre ele e Oseas não
cessaram quando ele deixou a Secretaria de Saúde.
Os autos da investigação revelam a troca de mensagens e
ligações pelo WhatsApp entre o sócio da Dismed e o então vice-prefeito. “Tais
diálogos”, registra o documento, “ocorreram já no ano de 2025, quando Marcos
Antônio já havia assumido como vice-prefeito e não ocupava mais nenhuma função
na Secretaria de Saúde.”
O MPF avalia: “A manutenção do contato, mesmo após a
mudança de função administrativa, sugere que o relacionamento transcende
questões meramente administrativas ou profissionais.”
A representação criminal descreve o papel estrutural de
Marcos Medeiros no esquema com uma precisão que vai além das escutas:
“A contribuição de Marcos Antônio Bezerra de Medeiros na
estrutura seria a de servir como ponto de contato e interlocução entre as
empresas fornecedoras e a administração municipal. Durante o período em que
ocupou cargos na Secretaria de Saúde, teria facilitado as contratações e
mantido o fluxo de pagamentos que beneficiava o esquema. Após assumir como
vice-prefeito, teria continuado, conforme referido naqueles diálogos, como
interlocutor relevante, o que sugere manutenção de sua influência sobre as
decisões relacionadas aos contratos.”
Em 27 de janeiro de 2026, quando a Polícia Federal
cumpriu os mandados da fase ostensiva da Operação Mederi, dois endereços em
Mossoró foram alvos de busca e apreensão vinculados ao nome de Marcos Medeiros.
Um mandado de busca pessoal também foi expedido em seu nome.
Cinquenta e nove dias depois, Marcos Bezerra de Medeiros
tomava posse como prefeito de Mossoró.
Blog do Dina